terça-feira, 20 de julho de 2010







Na prospecção das seqüências de humilhação, existe o recorrente momento da humilhação sendo expressa pelos pés. Tipo, depois de demonstrar quem manda no pedaço e colocar o mocinho em seu devido lugar de mocinha, o vilão diz algo como “beije os meu pés, ô seu mané”. Ou “beije meus sapatos”, ou “lamba a minha bota”, ou mesmo “limpe a sujeira de minhas galochas”. No entanto não é isso o que acontece em “O Último Dragão”. Quando o Shogun do Harlem, aka Sho’nuff, finalmente encurrala Bruce Leroy e coloca diante do herói a escolha entre lutar ou se deixar humilhar, as palavras do Shogun não são sobre pés, botas ou sapatos, mas sim, e exatamente, as seguintes: “kiss my Converse!”. Ou seja, a atitude do Shogun não é apenas um ato de humilhação, mas também um chamado para a representatividade e presença do Converse All-Star em cena. Bruce Leroy, nosso herói, é claro, não usa um – o Converse All-Star sempre foi modelito para os alternativos, seja em Maria Antonieta, seja com o Shogun do Harlem.
Mas o que estou querendo colocar aqui é o seguinte: “O Último Dragão” é um filme que transcende a categorização de filme ruim ou filme bom, servindo além de qualquer coisa como um retrato de uma época muito específica – no caso, o inesquecível ano de 1985, quando superamos o temor do Big Brother, e o Kung-Fu e o Black-Power enfim puderam se encontrar.


Mas perguntando, quem é esse tal de Bruce Leroy? Bem, Bruce Leroy é o cara que treinava Kung-Fu no Harlem, e que foi colocado por seu mestre em uma busca pelo último grau do dragão – o qual, por algum inexplicável motivo, ele acredita que possa estar numa loja de biscoitinhos da sorte em pleno Harlem. E quem é o Shogun do Harlem? Bem, ele é o antagonista de Bruce Leroy e, convenhamos, seu nome/título já meio que explica tudo.

O primeiro embate entre os dois acontece em um cinema, quando o Shogun interrompe uma sessão de cinema estrelando ninguém menos do que Bruce Lee para re-estabelecer seu poder na guerra do Kung-Fu no Harlem. Normalmente imaginaria-se que o Shogun estaria sendo rude ao atrapalhar o direito dos espectadores de curtirem em paz a sessão de cinema; mas ele não precisa se preocupar com isso, já que os dançarinos de break’ dance que haviam invadido no cinema minutos antes para demonstrar seus novos passos já haviam cumprido esse papel... agora, porquê dançarinos de break’ iriam até um cinema para dançar, eu não sei.

Mas seguindo..., o Shogun derrota facilmente todos os oponentes que surgem, enquanto Bruce Leroy escapa de fininho pela porta traseira do cinema. Ele faz isso porque Leroy não acredita na violência, sendo um daqueles caras que gosta de ser reconhecido como o melhor sem precisar provar isso para ninguém.

No miolo do filme, Bruce Leroy conhece o seu par romântico, uma simpática garota que se tornou estrela no Harlem ao difundir as sensações das batidas da noite em uma boate. Ela usa roupas prateadas e um monte de purpurina no cabelo. Leroy também é constantemente humilhado por seu irmão mais novo, que insiste em ressaltar o fato de é muito mais cool do que um lutador de Kung-Fu mequetrefe. Nesse meio tempo o filme também apresenta ao espectador o seu segundo vilão, Eddie Arkadian, um empresário inescrupuloso (e branquelo) do Harlem, que deseja destruir a carreira da futura namorada de Leroy para poder elevar sua protegida, Angela Viracco, ao estrelato. Ah, e tem também um aquário cheio de piranhas que comem porquinhos; mas isso é meio que só um enfeite e, se me lembro bem, não cumpre nenhum papel no filme.

Daí, depois desse meio super empolgante com Ninjas, Mestres do Kung-Fu, Black-Disco-Music e segredos filosóficos, “O Último Dragão” volta a colocar Bruce Leroy e Sho’nuff frente a frente.

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